BIOTA-Educação Ciclo de Conferência 2014: Estrutura e composição

ESTRUTURA E COMPOSIÇÃO DO CICLO DE CONFERÊNCIAS BIOTA 2014 

Serviços Ecossistêmicos – conveitos e valores

A “economia dos ecossistemas” é uma disciplina ainda em desenvolvimento, cuja meta é o estudo das relações entre os ecossistemas, os serviços por eles prestados e suas relações com o desenvolvimento econômico e social. Essa nova disciplina busca compreender o funcionamento dos ecossistemas e os benefícios gerados para o bem-estar humano. Parte-se do princípio de que a qualidade de vida é profundamente dependente dos serviços gerados pelos ecossistemas. 

A Avaliação Ecossistêmica do Milênio, conduzida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente/PNUMA, entre 2001 e 2005, por meio de uma parceria entre diversas instituições internacionais e suporte de vários governos, sistematizou de forma ímpar os dados e informações relativos aos serviços ecossistêmicos e sua contribuição para o bem-estar humano.

A população do planeta é totalmente dependente de seus ecossistemas e dos serviços que eles oferecem, incluindo alimentos, água, regulação climática, ciclos biogeoquímicos, polinização, satisfação espiritual e apreciação estética. Nos últimos 50 anos, o homem modificou esses ecossistemas mais rápida e extensivamente que em qualquer outro intervalo de tempo equivalente na história da humanidade, em geral para suprir a demanda crescente por alimentos, água, madeira, fibras e combustível. Essa transformação contribuiu com ganhos finais substanciais para o bem-estar humano e o desenvolvimento econômico. Contudo, nem todas as regiões e populações se beneficiaram nesse processo — na verdade, muitos foram prejudicados. Além disso, o prejuízo total associado a esses ganhos só agora está se tornando aparente.

A degradação desses serviços já representa uma barreira significativa para a consecução das Metas de Desenvolvimento do Milênio, firmadas pela comunidade internacional em setembro de 2000, como um compromisso para combater a extrema pobreza e outros males da sociedade , e as consequências negativas dessa degradação podem se agravar bastante neste século.

Serviços Ecossistêmicos a serem abordados no Ciclo de Conferências:

Polinização 

Os polinizadores fornecem um serviço essencial ao ecossistema e trazem inúmeros benefícios à sociedade em razão do seu papel na agricultura. A polinização é fundamental para a reprodução sexuada das plantas e, na sua ausência, a manutenção da variabilidade genética entre os vegetais pode ser muito diminuída. Em geral, a produção agrícola reduzida ou os frutos deformados são resultantes da polinização insuficiente e não do uso insuficiente de insumos agroquímicos. Em ecossistemas naturais, polinização insuficiente pode ter consequências tão severas quanto a extinção de uma planta.

Há dois aspectos importantes e interconectados para os fornecedores de serviços ecossistêmicos de polinização: um é o que é requerido pela agricultura bem-sucedida e o outro é o destinado à manutenção da biodiversidade natural. Ambos dependem da sobrevivência de habitats naturais e, no caso da agricultura, do relacionamento espacial entre habitats naturais e culturas agrícolas. 

O declínio na população de abelhas polinizadoras, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, está gerando prejuízos anuais da ordem de centenas de milhões de dólares. Os estudos que abordam as exigências para a polinização de culturas no Brasil e seus déficits ainda são escassos. Os poucos dados disponíveis se concentram em um número reduzido de culturas, tais como melão, café, maracujá, laranja, soja, algodão, caju e maçã. Estas culturas são importantes para a economia brasileira, tanto para a exportação como para o mercado interno, e estas podem ser as razões pelas quais a maioria dos estudos disponíveis se concentra nessas culturas.

Proteção aos Recursos Hídricos

Este serviço ecossistêmico se refere à retenção, estocagem e filtragem de água de rios, riachos, lagos e reservatórios. Somente 3% da água do planeta está disponível como água doce. Desses 3%, cerca de 75% estão congelados nas calotas polares, em estado sólido, e 10% estão confinados nos aquíferos. Ou seja, a disponibilidade dos recursos hídricos é de aproximadamente 15% da água doce do planeta. A água é, portanto, um recurso valioso, extremamente reduzido, e o suprimento de água de boa qualidade é essencial para o desenvolvimento econômico, para a qualidade de vida das populações humanas e para a sustentabilidade dos ciclos no planeta.

O Brasil sempre foi considerado um país rico em água, com cerca de 12% dos recursos hídricos de superfície. Esse recurso está distribuído desigualmente em três grandes bacias fluviais (Amazonas, Tocantins e São Francisco) e dois complexos de bacias: o Rio da Prata – com três sub-bacias brasileiras, Paraná, Alto Paraguai e Uruguai – e os rios restantes que correm para o Atlântico e que se dividem em várias bacias. Mais de 70% da água doce brasileira está na região Amazônica.

Além das águas superficiais, o Brasil abriga ainda a maior parte do Aquífero Guarani, considerado um dos maiores mananciais de água doce subterrânea do mundo, que é compartilhado pelo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

O ciclo hidrológico está fortemente associado à vegetação e ao funcionamento dos ecossistemas, uma relação muito bem documentada na região Amazônica. Entretanto, apesar de altamente fragmentada e reduzida a cerca de 12% de sua cobertura original, a região da Mata Atlântica fornece água para 125 milhões de brasileiros (todas as capitais das regiões Sul, Sudeste e Nordeste estão no domínio Atlântico). Em um estudo recente, pesquisadores demonstraram que algumas espécies arbóreas emergentes da Mata Atlântica transpiram até 525 litros de água por dia no verão e até 350 litros por dia no inverno.  Em espécies arbustivas a transpiração é de cerca de 70 litros por dia o ano todo. Portanto, além de fornecer água para ¾ da população brasileira, a Mata Atlântica é de fundamental importância para manter o ciclo hidrológico. A água produzida não só é vital para toda essa população como é responsável também pela produção de mais de 50% da energia hidrelétrica do Brasil. 

A estrutura e a diversidade de espécies que compõem as Matas Ciliares desempenham ainda importante papel no controle da erosão, pois a vegetação diminui a força de impacto dos pingos de chuva no solo, evitando o escorrimento superficial que desagrega e arrasta partículas do solo. Esse serviço traz dois benefícios: 1) aumenta a absorção de água pelo solo, o que contribui para a recarga do lençol freático; e 2) evita o assoreamento dos cursos d’água com sedimentos. Além disso, as Matas Ciliares impedem que os excessos de nutrientes e de pesticidas, utilizados nas áreas agrícolas subjacentes, cheguem aos rios, riachos, lagos e reservatórios. Dessa forma, essas formações ciliares contribuem tanto para manter a biodiversidade dulciaquícola, evitando a eutrofização e/ou contaminação desses corpos d’água, como para a conservação do solo das áreas agrícolas. 

Biodiversidade e Mudanças Climáticas

As atividades humanas têm levado a um crescente aumento da perda de biodiversidade no planeta. Nos ambientes terrestres, as principais causas dessas perdas são as mudanças no uso da terra, desflorestamento, fragmentação e destruição de habitats e introdução de espécies exóticas invasoras. Nos ambientes aquáticos, se soma a poluição.  

Mais recentemente, o aquecimento global tem sido apontado como uma causa adicional para acelerar ainda mais as altas taxas de extinção de espécies. As espécies são afetadas de forma distinta, mas os modelos atuais indicam que muitas migrarão para regiões com climas mais amenos. Espécies com habitats restritos, como as de regiões montanhosas, são as mais vulneráveis.

Para mitigar as mudanças no clima é necessário limitar o aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Isso envolve tanto a diminuição das emissões desses gases como o aumento da capacidade de reabsorver o que já foi emitido. O funcionamento dos ecossistemas, que depende diretamente da manutenção da diversidade de espécies e das relações entre estas, tem um papel fundamental no sequestro e na manutenção de grandes reservatórios estáveis de carbono da atmosfera, além de outros elementos químicos que constituem os gases geradores do efeito estufa. 

Ciclagem de Nutrientes 

A composição química da atmosfera e dos oceanos é mantida, entre outros fatores, por meio de processos biogeoquímicos, que, por sua vez, são influenciados por processos bióticos dos ecossistemas. Bons exemplos são a influência da biota nos processos que regulam o equilíbrio CO2/O2 e a manutenção da camada de ozônio (O3). Esses processos são importantes para manter o ar limpo e respirável e também para a prevenção de doenças como o câncer de pele. 

Entretanto, determinar o valor desse serviço ecossistêmico é uma tarefa difícil e sempre depende da escala utilizada. Por exemplo: como valorar a contribuição de um hectare de floresta, ou de oceano, como sumidouro de CO2, na manutenção de uma atmosfera habitável? Dados estatísticos demonstram que o planeta já perdeu mais de 50% das florestas e 60% das áreas costeiras estão muito poluídas para manter a produtividade das algas, levando a um efeito cumulativo significativamente alto e de grande impacto econômico e socioambiental.

A vida na Terra depende da ciclagem contínua de cerca de 30 dos 90 elementos químicos que ocorrem na natureza. Em adição ao carbono (C) e oxigênio (O), os nutrientes mais importantes (macronutrientes) são o nitrogênio (N), enxofre (S) e fósforo (P). Além destes, são considerados macronutrientes o cálcio (Ca), magnésio (Mg), potássio (K), sódio (Na) e cloro (Cl). Adicionalmente, muitos outros elementos químicos, denominados micronutrientes (ou elementos traço), são necessários para manter a vida, incluindo, por exemplo, ferro (Fe), iodo (I), cobre (Cu), zinco (Zn) e manganês (Mn). Em geral, a disponibilidade desses elementos é um fator limitante para o crescimento dos organismos vivos, que dependem da sua constante ciclagem e reciclagem tanto local quanto globalmente. Mas são as características estruturais e/ou de funcionamento dos ecossistemas que regulam a ciclagem de nutrientes. Por exemplo, organismos do solo decompõem a matéria orgânica liberando os nutrientes para o crescimento da vegetação local, mas também podem liberar os elementos gasosos para a atmosfera e cursos d’água, contribuindo para o ciclo global.

Os serviços dos ecossistemas derivados da ciclagem de nutrientes estão relacionados principalmente à manutenção dos solos “saudáveis” e produtivos. O solo é formado pela desintegração de rochas e, gradualmente, se torna fértil com o acúmulo de matéria orgânica animal e vegetal, bem como pela liberação de minerais. Geralmente, o processo de formação de solo é lento, alguns centímetros por século. Quando ocorre uma forte erosão do solo superficial, com a exposição da rocha mãe, a regeneração ocorre a uma taxa ainda mais lenta, entre 100 e 400 anos por centímetro de solo. Os serviços dos ecossistemas derivados da formação do solo estão relacionados com a manutenção das áreas produtivas para cultivo e para a integridade e funcionamento dos ecossistemas naturais.

Em relação aos ciclos do nitrogênio (N) e do fósforo (P) cabe ressaltar ainda a contribuição resultante das associações entre organismos. A simbiose entre fungos e raízes (conhecida como micorriza) ou a formação de nódulos de bactérias do gêneroRhizobium em raízes de plantas da família Leguminosae contribuem para a fertilização do solo tanto em ecossistemas naturais como em paisagens agrosilvopastoris. 

 

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