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''Foi um enorme privilégio ocupar esse posto''

''Foi um enorme privilégio ocupar esse posto''

Brito Cruz deixa o cargo de diretor científico da FAPESP e destaca em carta o progresso da pesquisa no Estado de São Paulo (foto: Léo Ramos Chaves)


Caros amigos da FAPESP, colegas da comunidade de pesquisa em São Paulo

Hoje é meu último dia como Diretor Científico da Fundação. Foram 15 anos nessa posição (mais 6 como Presidente e 2 como membro do Conselho Superior). Cinco mandatos de três anos, cinco listas tríplices e cinco indicações pelo governador.

Foi um enorme privilégio ocupar esse posto. Espero ter contribuído para o desenvolvimento científico e tecnológico do Estado de São Paulo. Creio que a pesquisa em São Paulo progrediu e muito. E tenho certeza de que progredirá ainda mais. São visíveis os efeitos da base de ciência e tecnologia construída, em São Paulo e no Brasil, ao longo de muitas décadas. Não se trata mais de arguir que C&T serão importantes para o Brasil. A capacidade de criar boa ciência e boa tecnologia é essencial para melhorar a qualidade de vida dos brasileiros, por suas conquistas no âmbito intelectual – colocando pesquisadores do Brasil no debate sobre novas ideias em todos os campos do saber – e pelo impacto na economia e na sociedade.

São tantos os resultados. Sempre foi grande minha ânsia por mostrá-los, de tal forma que certamente exasperei muitas plateias e muitos de vocês em palestras, chateando vocês com um desfile infindável de boas coisas que cientistas no Brasil criaram. Na minha maneira de ver o cargo, é papel de um Diretor Científico contar, recontar e demonstrar as realizações dos pesquisadores repetidamente, na esperança que os colegas contem a terceiros e que isso ajude a sociedade paulista e brasileira a valorizar cada vez mais o investimento feito por ela em ciência e tecnologia.

A pauta de ciência e tecnologia paulistas já é impressionante, mesmo que ainda precise ser expandida. Inclui produzir alimentos e reduzir seu custo, conhecimento para o tratamento de doenças, desenvolvimento de vacinas, produção de energia de fontes renováveis. Ambas – a ciência e a tecnologia – contribuem para criar uma economia vibrante como a paulista. A pauta inclui o estudo das partículas elementares, átomos e moléculas, a origem do universo, a literatura de Monteiro Lobato, Guimarães Rosa, Shakespeare, a filosofia dos clássicos gregos, a lógica paraconsistente, a ciência política da desigualdade (e a necessária para sua redução), a reforma fiscal, a organização da sociedade e uma infinidade de outros temas.

Tudo isso, e mais, fez parte da pauta de assuntos que ilustrou e alegrou minha vida nesses 15 anos. Além dos temas, há os aspectos relativos à forma de fazer pesquisa: pesquisa na universidade, pesquisa em institutos com missão dirigida, pesquisa em pequenas, médias e grandes empresas. Houve o desafio sobre como conectar essas “ilhas”. Creio que hoje estão mais conectadas do que há alguns anos e, espero, estarão mais conectadas daqui a outros tantos anos. E, uma conquista pela qual lutamos muito, a ciência em São Paulo está mais conectada ao mundo do que jamais esteve.

Vivemos tempos surpreendentes, com a pandemia COVID-19, que reacendeu em todo o mundo o respeito e a esperança no que a boa ciência pode criar para a sociedade. Mesmo assim é preciso ter noção dos limites – eu disse em uma entrevista recente, “Com ciência vamos sofrer menos. E é bom lembrar que ciência não faz mágica”.

O papel da FAPESP, que sempre foi importante, tem se demonstrado cada vez mais relevante para a sociedade paulista, recebendo amplo reconhecimento nos meios de comunicação (por exemplo, https://opiniao.estadao.com.br/noticias/notas-e-informacoes,o-exemplo-da-fapesp,70003213012). Tal papel é possível graças à existência do dispositivo constitucional que garante à Fundação estabilidade e previsibilidade de financiamento, e autonomia para operar com critérios e seletividade que valorizam a boa pesquisa. Mais que a existência do dispositivo constitucional, há que se reconhecer e valorizar o fato de sucessivos governos no Estado de São Paulo apoiarem a Fundação precisamente como preconiza a Constituição paulista.

Como escrevi acima, foi um privilégio servir na posição de Diretor Científico. Agradeço à comunidade de pesquisa paulista por ter me dado essa oportunidade. Agradeço também, e especialmente, aos colegas na FAPESP: a equipe de funcionários dedicados, e os colegas dirigentes – Diretores e Presidentes com quem trabalhei, e os membros do Conselho Superior.

De forma ainda mais especial, agradeço aos Coordenadores de Área e Coordenadores de Programa com quem trabalhei. Por último, e com enorme afeição, admiração e reconhecimento, agradeço aos membros da Coordenação Adjunta, com os quais convivi tão proximamente (já tenho saudades dos almoços – e da feijoada – na Deola ou na Brascata). As coordenações formam uma equipe de espetacular dedicação, amor à ciência, capacidade e conhecimento sobre a pesquisa em São Paulo, no Brasil e no mundo, insubstituível para discutir, conhecer, e propor políticas para desenvolver a ciência e a tecnologia no Estado de São Paulo – o mandamento da Constituição para a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Carlos Henrique de Brito Cruz

25 de abril de 2020.

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